
Criança gosta de efeito especial.
Quanto mais estranho e fantástico melhor.
Quando aprendi que espremer limão nas cinzas fazia tudo fermentar foi uma felicidade.
Mas enjoava fácil das coisas. Talvez por isso não namore hoje, mas isso não vem ao caso...
Então passei a desmanchar os formigueiros em busca de chocolate granulado, mais tarde a fumar canudos secos de mamão, a comer as Marias pretinhas, as Marias moles, as Marias sem vergonhas, ração de cachorro, semente de girassol e por aí vai...
O problema foi esse, descobrir que eu tinha uma boca e que ela não servia apenas pra falar.
ASS infantil ficava no cofre com uma senha que eu desconhecia, junto com o CEBION, aqueles comprimidões redondos grandes de vitamina ‘C’ que efervescem na água.
Dessa vez o problema não foi o excesso de remédio em si, mas o vidro dele.
Como de costume tudo que era potinho tampinha e caixas de remédio vazias iam parar na minha caixa de brinquedos, assim foi que encontrei um vidro desses lá.
A questão é que o vidro estava vazio, mas a tampa não.
E fiz o diabo pra abri-la.
E criança consegue, acredite!
Na minha cabecinha de meia década de vida aquilo era um pó mágico, e daí não tive dúvida. Comi tudo.
Não demorou muito pra que eu percebesse que o tal pó “mágico” não era gostoso como o suco, óbvio, nem como o comprimido puro, nem como nada, era horroroso.
E eu comecei a passar mal, claro. Uma náusea sem fim, minha barriga parecia que ia dar um nó e eu suava frio em pleno sol.
Quando eu estava quase desmaiando corri para sala, peguei uma coberta e deitei no sofá.
O bom da infância é que tudo parece se resolver debaixo de uma coberta com a cabeça em baixo dela.
Pedi uma mamadeira de leite com chocolate gelado.
Bebi em dois minutos.
Pedi outra. Minha mãe me olhou desconfiada: “Credo Cecília, ta doente?” E eu bebi a segunda mamadeira, puxei a coberta mais pra cima e fiquei só com o olho de fora.
Fiquei lá deitada esperando passar aquela coisa ruim.
Desse dia em diante usei mais minha boca pra falar e deixei um pouco de gostar de ‘umas coisas’, principalmente coisas de laranja que fervem... de mágica... de pós... enfim... o que eu continuo gostando mesmo, é dessa época de meia década de vida, muito bem vivida.



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